Quando jovem, os meus pais me levavam à missa em todos os finais de semana. Era quase como um rito sagrado, do qual nem a mais torrencial chuvarada os faria demover da ideia de ir à missa. Cheguei à vida adulta e optei por deixar a minha própria fé e as idas sagradas à igreja em uma gaveta na prateleira do quarto. Não que eu não acreditasse mais em Jesus Cristo e em Deus Pai, mas, aos 18 anos, não quis mais compartilhar.
Os anos passaram. Vieram conquistas e também equívocos, pessoais e profissionais. Eis que, 18 anos depois - aos 36 - reiniciei este hábito pelo qual tenho tomado gosto, tanto quanto tomar chimarrão e escrever qualquer coisa em qualquer lugar: retornei às missas dominicais. E é justamente aqui que a nossa história começa.
No último domingo (23), cheguei atrasado à missa da Catedral Diocesana e tomei assento no penúltimo banco. Geralmente estou entre os primeiros dez, com visão privilegiada do Padre, dos coroinhas e de toda a comoção que cerca o Altar. Neste domingo, no entanto, sentei-me bem lá no fundo – e presenciei cenas que quis trazer para cá: um enxame de crianças e a pureza dos seus corações!
À minha frente, dois casais – pai e mãe e dois filhos pequeninos, irmãos, o irmão mais velho e a pequenina irmã, com não mais do que sete ou oito anos. Certo instante, a mãe retira os próprios óculos para enxugar os olhos. A filha pequenininha, inocentemente, leva o próprio dedinho indicador aos olhos da mãe, enxugando-lhe e sorrindo ao redor. Um pouco à frente, um menino danado brincava absorto em meio à oração do Padre Volnei com uma pelúcia do Relâmpago McQueen. Mais para o lado, uma mãe acalentava o próprio filho em seus ombros – quase adormecido, o olhar distante em direção às celestiais portas da Catedral.
O padre Volnei sugeriu-nos abraçar uns aos outros, darmos graças aos companheiros de jornada e de fé. Ao meu lado, um casal que julgo serem namorados. A moça, com tênis claro sem meias e um belíssimo cardigã branco dá-me suas mãos e enseja boas energias. Faz o mesmo com todo o fiel que está por ali – inclusive – à criancinha pequenininha.
Ao encerrar a cerimônia, opto por sair pelas portas centrais. Mais uma vez é uma mudança de hábito: estou acostumado a sair pela portinhola lateral, no pequeno Jardim de Maria e o conseguinte corredor que leva à rua detrás. Do alto das escadarias formosas, três ou quatro moradores de rua aguardavam e pediam gorjetas. Insistentes. Abordaram com veemência um senhor idoso que caminhava atrás de mim.
Mais à frente, alguns passos, defronte ao Pátio Eberle, outro residente das ruas não resistiu a acolchoar-se entre papelões fétidos e farelos de pão dormido, sob a marquise, e dormir. Segui o meu caminho enquanto desejei-lhe em oração que Deus Pai o guiasse aos portões do paraíso, com abundância e prosperidade.
Voltarei a sentar no fundão da Catedral em mais oportunidades. Embora longe do Altar do Senhor, presenciei momentos de inocência, gentileza, fé, amor e esperança. É o que vale a pena ver e rever.